POR: VITOR MOREIRA
O que jogadores como Ronaldo Fenômeno, Careca, Luizão e Amoroso têm
em comum? Todos subiram das categorias de base para as equipes principais
graças ao faro apurado do técnico Carlos Alberto Silva. Foi pelas mãos dele,
também, que Romário chegou à Seleção Brasileira, em 1987.
Não bastasse a habilidade em descobrir talentos, Carlos Alberto também ostenta um currículo
inquestionável: um Campeonato Brasileiro (1978, pelo Guarani), um campeonato
japonês (1990), bicampeão nacional com o Porto (91/92 e 92/93), uma Supercopa
de Portugal (92), uma Supercopa com o Cruzeiro (95), quatro títulos estaduais
(um deles com o Atlético, em 81) e o Panamericano de 87 com a seleção.
Dono de uma humildade e simpatia ímpares, Carlos Alberto concedeu entrevista
ao Jornal do CREF6/MG e falou sobre sua carreira, as chances do Brasil na
Copa e a falta de profissionalização no esporte.
“Formação em Educação Física foi
fundamental na minha carreira”
Em menos de dois anos, o Brasil sediará a Copa do Mundo.
O país tem alguma chance de se sagrar campeão?
Acho difícil. Estamos a praticamente seis meses da Copa das Confederações e
ninguém sabe dizer qual é o time-base do Brasil.
Ao longo dos últimos dois anos, a seleção enfrentou adversários fraquíssimos,
que não nos permite avaliar o patamar de qualidade da nossa equipe.
E o momento de se cogitar uma troca de comando já havia passado.
É uma história repetida do que aconteceu comigo e o Lazaroni na Copa de 90.
E deu no que deu. [Em 1989, Carlos Alberto Silva foi demitido do cargo de técnico da seleção sem nenhuma explicação.
Sebastião Lazaroni assumiu e comandou a equipe na Copa da Itália, no ano seguinte.
O Brasil foi eliminado nas oitavas-de-final pela Argentina, em uma das piores campanhas do
país em Copas do Mundo.]
Independentemente do resultado em campo, a Copa pode ser benéfica para o Brasil?
Sem dúvida.
A Copa proporcionará ao resto do planeta uma nova imagem do Brasil.
O país passará a integrar um bloco de potências, especialmente após as Olimpíadas.
Podemos provar que temos condições de realizar um grande espetáculo.
Com certeza vai faltar uma coisa ou outra, mas isso também aconteceu nas outras sedes.
Além disso, a Copa vai abrir possibilidades para uma maior profissionalização do futebol no Brasil.
Falando em profissionalização, você é formado em Educação Física pela UFMG.
Essa formação ajudou em sua carreira?
Foi decisiva. Ingressei no futebol em uma época em que se dizia que quem nunca
jogou futebol profissionalmente não poderia ser treinador. Os clubes e técnicos não davam
espaço sequer para preparadores físicos. Isso tudo começou a mudar, principalmente,depois
que conquistei o Campeonato Brasileiro com o Guarani, em 1978. [Carlos Alberto assumiu o
Guarani com apenas 38 anos e sofreu grande resistência da torcida e da imprensa, por ter no
currículo apenas equipes do interior mineiro.
Hoje é ídolo em Campinas.]
Ainda falta profissionalização entre os
técnicos no futebol brasileiro?
Sempre achei que ex-jogador que assume o cargo de técnico deveria passar
por um curso preparatório.
No curso de Educação Física aprendi questões de fisiologia e nutrição que um ex-jogador
simplesmente ignora. O conhecimento deles se restringe ao que aprenderam durante a
carreira, com os técnicos que os treinaram.
É muito pouco.
O centro de treinamento da CBF, por exemplo, poderia ser muito mais
bem aproveitado oferecendo cursos a esses jogadores que querem se tornar técnicos de
futebol.
Esse problema se estende às categorias de base?
Principalmente lá.
A maioria dos clubes não oferece estrutura para seus garotos.
As categorias de base ficam entregues a empresários.
A prática, hoje, é pegar qualquer ex-jogador que encerrou carreira na equipe
e colocá-lo para treinar a base, sem nenhum tipo de preparação.
Dos novos técnicos que estão no
mercado você apontaria algum cujo trabalho
você admira?
Acho que o Ney Franco [atualmente treinador do São Paulo] está trilhando um
caminho muito bom. [Coincidência ou não, Ney Franco é outro caso de treinador
formado em Educação Física e que não fez carreira como jogador.]
Você já está afastado do futebol há
quatro anos. Ainda pensa em retornar?
Se me pagassem um salário justo, preferiria treinar as categorias de base.
Mas como dizia Gilson Santana, um professor que tive:
“o mais difícil no futebol é entrar na roda”.
Voltar, então, é quase impossível
FONTE: Jornal do CREF6/MG • Ano 12 • nº 16
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