quinta-feira, 25 de outubro de 2012

A memória da cidade nas placas das esquinas na Terra do Rei Pelé.





       "Você vira à esquerda no final da rua da ESA, sobe a rua do Bueno Brandão, depois
vira na rua do Estadual, pega a rua da Matriz, desce a rua do Hospital e segue até a
rua da Faculdade". 
       Todo tricordiano já deve ter presenciado diálogos como este. Talvez
por comodidade ou mesmo por costume herdado de gerações antigas, não existe em
Três Corações o hábito de se referir às ruas pelos nomes a elas concedidos. 
        No entanto, por trás das denominações popularmente estabelecidas, há uma variedade de
personalidades da elite política, econômica e cultural do município, que foram
homenageados emprestando nome e sobrenome aos logradouros da cidade.
        Completam a lista alguns párocos locais, políticos de expressão nacional e pessoas
comuns, como um certo Edson Arantes do Nascimento.
        
A memória da cidade nas placas das esquinas
     
       No centro da cidade, boa parte das ruas  faz homenagem a ex-políticos e fazendeiros, 
categorias que, na prática, muitas vezes se misturavam nos primórdios de Três Corações.
 "Os fazendeiros eram quem dominava a cidade. 
       O bancário ganhava pouco, o militar ganhava pouco.
Sobravam comerciantes e fazendeiros", lembra o ex­-contador, músico e
memorialista Victor Cunha. 
       Recorrendo a anotações que recolheu nos últimos 20 anos (algumas delas transformadas em livros),
seu Victor recorda do tempo em que as decisões sobre os rumos da cidade ficavam
por conta de grandes agricultores e pecuaristas, como Cornélio Andrade Pereira, Francisco 
Antônio Pereira e Nelson Rezende da Fonseca.
      Esses nomes remontam a tempos em que as disputas políticas eram duras, disputadas
numa espécie de vale ­tudo. "Não era uma política de morte, nem de briga, mas tinha
uma disputa aferrada. Eu estava noivo e trabalhei na eleição do seu Américo Dias.
     Nós íamos buscar os eleitores nas fazendas.
Era eleitor de curral, ou de cabresto, como falava na minha época", recorda seu Victor, ressaltando a rivalidade entre UDN e PSD, comum naquele tempo. "Você tinha que levar o eleitor lá na seção de votação, porque se você deixasse pra trás o outro chegava e trocava o voto dele", completa.
     As ruas da cidade foram, durante muitos anos, definidas por números, graças à lei
municipal 207, publicada em 1919, na véspera do aniversário da cidade.
     A situação só foi mudando a partir da década de 1940, quando sucessivas leis foram 
rebatizando o mapa tricordiano. 
      E as colônias de imigrantes, que tiveram grande presença na formação da elite tricordiana,
não ficaram de fora do novo mapa da cidade.
     O destaque, evidentemente, fica por conta dos sírios e libaneses.
 "A gente falava 'os turcos', mas eles não gostavam não", lembra Maria Leopoldo Rezende,
filha do ex­-vice­-prefeito Nelson Rezende da Fonseca. Mas as referências a imigrantes não se 
limitam apenas aos 'turcos', como no caso da rua Julião Arbex ou da galeria Elias Kalil Auad. 
    Há outras colônias representadas, como a do italiano Aurélio della Lúcia e a do polonês 
Coss Boczar, estampada em uma das esquinas  do bairro Peró.
    Há ainda logradouros que homenageiam personagens lembrados pela presença
marcante que tiveram, mesmo fora da política. 
    A rua Aída Rosa, por exemplo, fica onde a professora de mesmo nome tinha seu colégio primário, o Externato Santa Cândida.
    "O colégio era dela, ficava num sobrado antigo.
      Embaixo funcionava uma alfaiataria e, em cima, o colégio. 
      Era um coleginho simples. 
      Nosso uniforme era um avental por cima de um vestido, amarradinho de lado,
era uma belezinha", contou a ex -­professora Terezinha Fonseca, em entrevista para o
projeto Memória da Educação Tricordiana. 
Outros exemplos deste caso são a parteira Amália Bittencourt e o comerciante Pedro Bonésio.
      "Ele tinha uma loja famosa, a Casa Bonésio. Eu comprei muito lá, meus
presentes de casamento foram comprados todos lá, porque era loja de artigos de
presentes.  Para a época era uma loja muito fina", comenta Maria Leopoldo.

                                            NA MEMÓRIA

        Lembranças de quem conviveu com personagens que dão nome às ruas
O seu Pedro Bonésio era um comerciante.
       A loja dele era ali onde é o Bradesco, ali era um sobrado antigo.
       Eu comprei muito lá.
       Naquela época a gente ainda achava muita coisa de porcelana mesmo, de prata. 
       Eu ainda tive tempo de ganhar alguns presentes assim, dos amigos da família.
       Era uma loja e tanto.
       E também os fazendeiros compravam tudo lá, coisa pra gado, pra cavalo, material
de construção, parafuso, prego, tudo você achava lá. 
       A loja ainda mantém alguma coisa, mas agora é menor. (Depoimento de
Maria Leopoldo Rezende)
       Eu fiz o terceiro e o quarto ano do primário na escolinha da Dona Aída Rosa,
que ficava na esquina da Avenida Militar. 
       A dona Aída foi uma grande professora. 
       Muita gente estudou com ela. 
       O pai dela, Manuel Franco da Rosa, foi o primeiro diretor do Bueno Brandão. 
       Ele dava aula também no Externato. 
       O marido dela, Luciano Andrade, tinha uma farmácia. 
       Todo mundo comprava com o marido da dona Aída. 
       Era muito interessante: quando ela botava a gente de castigo, ele ia lá e soltava todo mundo.
(Depoimento de Terezinha Fonseca)
       Eu era garoto e conheci seu Chico Pedra pelo nome, porque ele era famoso, era
fazendeiro, tinha uma política muito boa.
      Sentado ali no alpendre da casa dele, ele comandava a política toda da cidade. 
      Ele era pai da esposa do seu Cornelinho e morava ali onde é o curso de inglês perto da Igreja.
      Ele ajudou na construção do Hospital São Sebastião, da Igreja Matriz,
 foi vice-­prefeito do seu Odilon Rezende de Andrade. 
      Era uma pessoa inteligente, fazendeiro, plantava muito café, tinha gado, deixou os filhos
muito bem. (Depoimento de Victor Cunha)
      O Aurélio era italiano, veio para Três Corações não sei como. 
      Ele tinha uma casa bancária na praça. Ele era muito rigoroso.
       Eu cheguei a trabalhar com ele um ano, em 1946, como servente da casa bancária. 
       Eu abria a porta da casa bancária, fechava na hora que terminava o expediente, entregava
avisos, fazia limpezas, dava geral na casa.
      Ele tinha um certo capital. Emprestava pra você um tanto, pra outro um tanto, quando
você pagava emprestava pra outro, a juros comerciais. 
      O homem era danado. (Victor Cunha) Seu Nelson era demais, foi notável. 
      Era muito religioso, amigo do meu pai. Tanto que nós não éramos políticos, 
mas por causa do seu Nelson, amizade muito grande com minha família, com meu pai, nós até
passamos a votar com ele.
      Seu Nelson não foi prefeito, ele foi vice, mas tinha um prestígio político muito grande, foi
presidente do Clube muitos anos.
 Ele era um fazendeirão aqui da cidade e era chamado de Nelson Cota. (Victor Cunha).




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